Excalibur

Nó Celta

A lendária Excalibur, a espada do Rei Artur, era dita capaz de cortar aço e dotada de poderes místicos. Em galês, é conhecida como “Caledfwlch”. Segundo o poema Merlin, de Robert de Boron, Excalibur é a espada da lenda, ou a Espada na Pedra, na qual uma misteriosa espada apareceu transpassada em uma pedra e apenas o rei de toda a “Britannia”, por direito, poderia retirá-la. Já no épico Suite du Merlin, Excalibur foi entregue ao Rei Artur pela Dama do Lago, quando sua espada original foi destruída em uma batalha contra o Rei Pellinore.

A Espada do Rei

Quinze anos depois do nascimento de Arthur, que era filho da união ilegítima entre Pendragón e Igraine, então esposa do Duque de Tintagel, o rei Uther morreu sem ter dado ao reino um herdeiro, e os senhores feudais começaram uma disputa entre si pela obtenção do trono.

Merlin, solicitou ao bispo que interviesse junto aos feudais para uma trégua e para a convocação de um torneio nas proximidades do Templo. Todos concordaram e, ao chegar ao local, depararam-se com uma pedra branca que continha uma placa de metal, da qual sobressaía uma fascinante Espada. Ao pé dela, uma inscrição dizia que aquele que pudesse retirar a Espada seria o próximo rei da Grã-Bretanha. Todos os nobres tentaram, mas sem êxito, e assim foram preparar-se para o torneio.

Arthur, que era um adolescente, havia comparecido com Kay e Sir Hector. Kay esqueceu sua espada na tenda. Arthur foi buscá-la e não a encontrou. No regresso, viu a Espada encravada na pedra e, sem ler a inscrição, retirou-a e a levou para Kay.

Sir Hector, conhecendo a verdadeira procedência de Arthur, ordenou que a Espada fosse colocada novamente na pedra e pediu a Kay que a retirasse. Ele não conseguiu. Em seguida, fez o mesmo pedido a Arthur, que voltou a retirá-la sem nenhum esforço. Assim, Sir Hector comunicou que Arthur era o filho legítimo do rei Uther e, em consequência, seu sucessor e, junto a Kay, ajoelhou-se e jurou ser seu leal vassalo.

Os senhores feudais tinham dúvidas. Alguns aceitaram, outros não. Arthur, confuso, pediu conselhos a Merlin, e este respondeu-lhe que já era um rei, mas que, para sê-lo verdadeiramente, deveria conquistar a confiança de seu povo por meio de suas próprias ações.

Com a ajuda do mago, Arthur conseguiu reunir todos os condados em um só reino e, durante uma das campanhas, conheceu a mulher que iria assumir um papel relevante no desenlace da narrativa: Guinevere.

A lâmina de metal que surge da pedra indica a matéria, enquanto a Espada representa o espiritual atuando sobre ela. A matéria é o próprio indivíduo. Arthur é aquele que recebe a iluminação como um precioso dom. A submissão de Sir Hector e de Kay representa a nobreza e o amor que acompanham toda evolução espiritual. As posições antagônicas dos senhores indicam o conflito interno de Arthur: ser ou não ser. O conflito entre o ser pagão e o ser cristão. Por isso, Merlin o aconselhou a colocar-se à prova, já que possuía sua arma, e de seu bom emprego dependeriam seu sucesso e o exercício real de sua função.

As dúvidas de Arthur quanto a colocar-se à prova simbolizam o conflito do homem consigo mesmo, buscando sublimar os aspectos materiais, algo que só se estabelece no momento da tomada de decisões. O homem só seria rei se conseguisse ultrapassar seu ego, seus instintos e suas paixões. Por isso, como todo cavaleiro, iniciou sua peregrinação para alcançar suas metas.

Um reino sem rei é a representação de um mundo submerso nas névoas e no caos, causado pela ausência de um soberano capaz de libertar os homens das lutas fratricidas, próprias de uma humanidade mergulhada no dualismo. É também a expressão da própria guerra interior do ser humano, governado, quase sempre, por forças desatadas, paixões e desejos do ego inferior, que necessitam de um guia para alcançar seu verdadeiro destino. Trata-se de uma visão arquetípica do Ciclo Arthuriano.

O Rei Pellinore e a Espada Excalibur

Arthur estabeleceu residência no castelo de Caerleon, perto de Tintagel. Um dia, foi informado de que o rei Pellinore instalara uma tenda em suas terras, disputando-lhe a soberania. O rei Arthur enviou Sir Griflet, um jovem cavaleiro que foi vencido e, por isso, partiu com Merlin para enfrentar seu oponente. Depois de uma árdua luta, o cavaleiro adversário rompeu a espada de Arthur, fazendo-o cair.

Quando Pellinore se preparava para desferir o golpe fatal, Merlin, com sua varinha mágica, lançou-o em um sono profundo e levou Arthur para buscar outra espada. Depois de atravessar um bosque, chegaram a um lago, de onde emergia um braço cuja mão segurava uma reluzente Espada. De imediato, uma fada que caminhava sobre as águas indicou a Arthur que subisse em uma embarcação e retirasse a Espada.

Arthur obedeceu e, quando chegou junto a ela, tomou-a suavemente com suas mãos, enquanto o braço que a sustentava desaparecia sob as águas. Merlin explicou que a fada era Nimue, a Dama do Lago, e que a Espada que lhe fora entregue era Excalibur, forjada em Avalon.

Arthur representa o Herói da tradição céltica, aquele que segue lutando e que, quando sua Espada se rompe, ou seja, quando suas convicções estão prestes a desmoronar, encontra o auxílio de Merlin. Surgem então os elementos arquetípicos de seu inconsciente, que o fazem reagir e adormecem ou purificam seu aspecto negativo. Por isso, seu oponente chama-se Pellinore, nome que possivelmente pode ser decomposto em “Pelli”, pele; “No”, não; e “Re”, rei, derivado do antigo latim Rex, podendo significar “A Pele do Não-Rei”.

Os que se revestiam com peles de outros seres, fossem magos, guerreiros ou sacerdotes, faziam-no para apropriar-se dos poderes do ser cuja pele utilizavam ou para representá-lo. Assim, Pellinore era aquele que se revestia da Pele do Não-Rei, ou seja, dos aspectos negativos deste. Esses pares de opostos conduzem à noção do bom e do mau, do positivo e do negativo. De forma simples, Pellinore representaria o lado sombrio de Arthur.

Ao sobrepor-se ao seu lado obscuro, Arthur é recompensado. As potências celestiais o consideram digno de ser seu representante e lhe entregam Excalibur, a Espada que surge das “águas superiores” ao mundo manifestado, cujo nome parece significar “O Poder dos Lígures”, associado ao Deus irlandês Lugh.

O recebimento dessa segunda Espada concederia a Arthur o Poder dos Deuses e, com ele, uma nova Iniciação. Desse momento em diante, seria Rei e Sumo Sacerdote, estando em plenas condições de assumir o “Regnum”. A Espada, assimilada ao Raio, à Coroa e ao Trono, e Merlin, assimilado à Águia, fazem de Arthur o Senhor da Justiça, da Ordem e da Vontade.

Adaptação bibliográfica:
Avalon e outros Mistérios Arturianos – Helena Gerenstadt
(Atualizado em 05/06/2026)

Ogham

"Três velas que iluminam a escuridão: Verdade,
Natureza e Conhecimento." Tríade irlandesa.

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